Filme disseca segredos e rixas dos Ramones
(Essa notícia é de setembro, mas eu não sabia e se alguém não sabia, fica sabendo agora)
Um novo documentário sobre o grupo punk Ramones traz revelações sobre a amizade entre os quatro desajustados de Forest Hills, Nova York, que resolveram formaram uma banda no início dos anos 1970 e adotar o mesmo sobrenome coletivo.
"A excentricidade dos Ramones era a origem de sua genialidade, mas também limitou suas carreiras", comentou Jim Fields, que dirigiu o filme ao lado de Michael Gramaglia. Este acrescentou: "Acho que eles nasceram infelizes e então encontraram uns aos outros."
Trabalhando no mesmo espírito de faça-você-mesmo dos próprios Ramones, os cineastas de primeira viagem passaram quase dez anos documentando a saga da banda.
O resultado é Fim do Século: A História dos Ramones, da Magnolia Pictures, que teve lançamento limitado nos Estados Unidos e será exibido nesta terça-feira (12h30 e 22h) e quarta (17h) no Festival de Cinema do Rio de Janeiro.
O filme também funciona como homenagem a Johnny Ramone (John Cummings), morto no último 15 de setembro de câncer da próstata. Ele foi o terceiro integrante da banda original a morrer nos últimos três anos. As entrevistas francas com o guitarrista, célebre por ser tão calado, constituem parte importante do filme.
O longa-metragem, que reúne retratos do grupo com a história da cultura pop, inclui imagens raras dos lendários primeiros shows dos Ramones no CBGB, em Nova York, que acabou virando centro do universo punk e New Wave.
Mas a revelação mais espantosa é que, durante 17 dos 22 anos de existência da banda, dois de seus membros fundadores não falaram um com o outro.
ANTI-ASTROS DO ROCK Como todos os fãs ávidos da banda, os diretores e produtores de Fim do Século se sentiam fascinados pela aura de "anti-astros do rock" dos Ramones: "Eles não eram bonitos. Eram desajeitados e um pouco estranhos.
Era perfeito para nós", contou Gramaglia.
Na era da discoteca e do rock instrumental carregado de solos, o quarteto do Queens criou uma estranha tempestade com canções de dois minutos cada, letras monossilábicas e cantadas na maior velocidade possível.
Entretanto, apesar do impacto criado por músicas como Blitzkrieg Bop e I Wanna Be Sedated, os Ramones nunca tiveram uma canção que chegou aos Top 40 das paradas. Eles viram outros astros do CBGB, como Blondie e Talking Heads, ultrapassá-los em termos comerciais, e outras bandas, como Sex Pistols e Clash, ficar com a coroa do reino punk.
Gramaglia fez amizade com a banda quando trabalhava para uma empresa de administração financeira da qual os Ramones eram clientes. Quando ele e Fields começaram a trabalhar no filme, em 1998, dois anos após a banda se desfazer, descobriram-se navegando em águas turbulentas.
O problema principal era a rixa que existia de longa data entre o republicano convicto Johnny e o vocalista Joey (Jeffrey Hyman), ativista de esquerda. Mas o que os dividia não era a política - era uma mulher.
Ainda no início da carreira da banda, a namorada de Joey, Linda, o deixou para ficar com Johnny, fato que o cantor imortalizou na canção The KKK Took My Baby Away.
Linda e Johnny se casaram e continuaram juntos até a morte do guitarrista. Joey e Johnny continuaram a trabalhar juntos, dividindo o espaço apertado de uma van alugada quando estavam na estrada, mas nunca mais voltaram a se falar, nem mesmo quando Joey estava em seu leito de morte.
No filme, o guitarrista, que morreu em casa, cercado por amigos, diz: "Se não gosto de uma pessoa, eu não gostaria que ela me chamasse quando eu estivesse morrendo."
SURPRESA A briga entre Joey e Johnny era algo que a banda mantinha em segredo, tanto assim que até mesmo amigos íntimos de Johnny vêm procurando os diretores do filme, após as sessões, para manifestar sua surpresa.
Fim do Século insere essa situação no contexto da química estranha, mas produtiva dos Ramones.
"Tudo de pessoal que tratamos no filme, o fizemos porque estava presente na música deles", contou Gramaglia.
O filme mostra que não faltaram disputas internas que alimentaram a criatividade da banda. Havia a desordem obsessiva-compulsiva de Joey, da qual os entrevistados só falaram livremente após a morte dele, em 2001, de câncer linfático.
Havia a dependência de heroína de DeeDee (Douglas Colvin), que acabou provocando a morte do baixista em 2002, semanas depois de a banda ter sido incluída no Hall da Fama do Rock and Roll.
Em meio às personalidades fortes, o baterista original Tommy (Tom Erdelyi), hoje o único membro ainda vivo dos quatro originais, gostava mais de trabalhar no quadro de controles do estúdio.
Seu substituto, Marky Ramone (Marc Bee), acabou expulso da banda em função de seu problema de alcoolismo, mas retornou, alguns bateristas mais tarde. A figura de autoridade era Johnny, que atuava como empresário da banda.
Fields e Gramaglia mostram que, como acontece com a maioria das famílias em que a excentricidade reina, cada um dos Ramones acreditava piamente que era o único Ramone normal e real.
Reuters

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